quarta-feira, 13 de abril de 2016

[BIBLIOTECA]


Montes de seres em silêncio abstraindo o mundo lá fora para se concentrar em letras. Silêncio que acalma o ser. Silêncio que sequer sabe que está posto. Regrado em papéis A4. Pendurado em colunas sustentadoras do edifício. Aqui se vem para ser invisível; para se curvar ao texto com a corcunda leveza de não ser visto. Aqui vários mundos coexistem. Mundos com traças, mundos justapostos com códigos em etiquetas descolantes, mundos ideologicamente conflitantes e os que arrastam os chinelos quando andam errantes. Do meu mundo, nesse momento, só eu participo.


Leio sobre o século XVIII, e me imagino nele, mais perdido que agora e condiciono minha volta à realidade para que não estar nela não me afete tanto o juízo. Meu suspiro de retorno à superfície sequer se percebe. Atuo num filme de cinema mudo, planos contínuos de câmera subjetiva. Mais tarde, não sei quando, editarei as cenas merecedoras de memória. As sequências virão sem resposta, mas também sem questões. Na mesa onde supostos pratos limpos se põe, haverão livros. Vidas passadas impressas em letras pretas no papel branco ou pardo. Café já não tão quente descendo amargo. Dúvidas que não desgrudam do pensamento ou do palato. Para todos os fins, mais linhas. Para todas as verdades só minhas, pratos.


Arte: Kristjan Dekleva

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

[SER OUTREM]



Chorei com a música como se lembrasse dela, como se nela estivesse impresso o drama de um momento sobre o qual nem devesse discorrer. Meu soluço quase silencioso, não sei se era de calafrio ou de horror. Chorar daquele jeito me transportava pra outra época, em que tinha praticamente outra pele. Outro dia vira na tevê como a cobra troca de pele. Que coisa horrível é ser o espectador da transição. Uma coisa horrível mesmo com a distância e proteção da tela e da dublagem sobreposta à fala do especialista. Mas de fato, dela, da troca de pele, eu havia passado. A couraça que me fazia sentir maior já tinha evaporado no tempo, a que me impunha como modelo, já caíra em farelos pelo caminho, aquela que vesti quando tinha certeza de todo o meu futuro já caíra em suor. Naquela ocasião corrida, sem olhadelas pra trás, água do corpo vertera, quase não querendo abandonar o sistema.

Mas o fato é que chorei. Água dos olhos vertia. Água me despia na frente dos outros convidados já quase me trocando de novo de pele. Escondi meu rosto emocionado sem saber que me curvava e me contorcia em medo. Não queria ouvir o momento mais orquestrado da música ali exposta, vertendo água salgada dos olhos, como se tivesse uma estaca no peito. Respirei tão fundo que tossi com a confusão de verter água e inalar. Desculpa perfeita para ir buscar um copo d’água. Levantei cambaleante e tropecei no pé do fumante. Errante, busquei um copo americano. Na água que repus, o alívio. Na mente a dúvida de porque chorei. No corpo a dívida, com a pele que não mais habito. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

[(PRE)TENSO]



Não há silêncio o suficiente na minha vida, mas algo me diz que estou são. Há barulhos que se colocam no meio da minha paz e os que me movem. Há perguntas que me perseguem, vozes que me percebem, olhares que não precisam de signos para conectar-se com o meu. Pequenas mágicas diárias acontecem e preciso de atenção para elas. Se apenas eu pudesse andar com uma placa que dissesse “em atenção” para que ninguém interpelasse a minha meditação. É que medito andando, comendo e fazendo o que me é essencial. Medito em companhia. Com músicas cujas letras entendo e as de letras que me são apenas botões coloridos, presos na pauta musical, envolvidas na casa de sua medida, em colcheias pausas ou pontos, para fechar a música completa. Medito ouvindo os outros e fingindo que os ouço. Meio que medito e medito inteiro. Às vezes me doo, às vezes algo me dói. Se não medito, não anseio, se não anseio vivo menos. Medito pequeno, pouco para não pirar. Leio poesia em forma de meditar. Refaço falas minhas, o que quis e não quis dizer. No meio de um turbilhão de vida presente, não quero estar preso na mente; vou, à esmo mesmo, viver. 

Foto: Barbara Lanz

terça-feira, 16 de junho de 2015

[O QUE SERÁ É]


O que será é. Mal resolvido no coração que não dá vasão ao medo. Perguntas em som de pêndulo, dúvidas com peso de perdas. Sem saber o que é, com uma leve impressão do que tenho nas mãos, sigo vivo. Divido sonhos com o resto da população. Tomamos o mesmo coletivo, nos cruzamos pelas calçadas, trocamos dinheiro por ítens básicos para a sobrevivência. No caminho pro meu destino, meu olhar altivo se coloca do lado do olhar perdido desse que segura as barras de mãos ao alto, rendido à rotina e à luta diária. Minhas dúvidas, penso, brilham em letreiro na minha testa. Se aproxima quem não tem pressa, se achega quem se identifica. Não saber não implica. Quero no no fundo, ser um pouco igual à todo mundo. Descer, caminhar, abrir a porta do destino, fazer o caminho existir e contar.

Quero a minha parte desta terra imensa, de tantos donos, que segue injusta na mão de poucos. Tolo eu que me pergunto ainda, que não durmo diante do silêncio, que não calo na boca do alvoroço, que choro afogado na enchente.  Um furo de bala rompe a noite na fotografia do jornal de amanhã. Cachaça é pra quem tem coragem. A mim, basta um gole. Rasgo o peito na vala funda de um amor de muitos quilômetros de memória e distância. Rasgo a garganta com a fumaça que acortina e revela. Rasgo a página que trata o próximo como número. Eu também, um número. RG, CPF, oito dígitos de um telefone móvel, o vigésimo terceiro na fila do banco. Aqui, esperando chamarem meu nome, meu peito grita o teu.

A única coisa que sei de antemão, diante da minha confusão, é que a certeza da humanidade do mundo se figura em mãos dadas. Amor que passa pelas extremidades dos dedos. Energia que se faz em corpo. Corpo que se faz em espécie. Espécie que se faz em ser espírito sobre duas pernas, vivendo o mundo terreno, se afogando em beleza, explodindo em exaspero, marejando; mesmo sem tristeza.


Arte: Henrietta Harris
Texto: Eliza Araújo e Raquel Medeiros

quinta-feira, 7 de maio de 2015

[CRIA]


O mundo mudou muito, minha filha, não sei se quero lhe contar. Melhor te pôr meias com babados dobrados no calcanhar. Melhor te ensinar a andar pelas calçadas onde mais gente caminha dando trezentos e sessenta repetidas vezes com o pescoço e eventualmente o corpo. Melhor te dizer que quem acorda cedo encontra o pote de ouro no fim do arco-íris. Te sacudo pra escola, te olho nos olhos. Te olho nos olhos também te vendo dormir. Sonhos devagares te fazem revirar as pupilas. Sonhos ruins te afobam e engolem seus gritos. Viver não vai ser sempre bonito, como é bonito brincar e ficar embasbacado com a grandeza do mundo. É tanta areia no parque, tanta gota no mar, tantas nuvens com caras de cachorro e de gente que passam a se misturar. É oxigênio das árvores, comida que cresce do chão, é irmão que vem na barriga, briga, zelo de antemão. Prova de amor é pertencer. Prova de amor é procurar o seu lugar num mundo que mudou muito e permanecer. 

terça-feira, 31 de março de 2015

[MAR MAIOR]


Não sei o que fazer com o meu amor ao mar. Ninguém entende como lubrifica os olhos olhar as ondas descerem como desce a calda no sorvete. Se unirem como mãos. Se resolverem no fim, como nada. Olho o mar e a minha paz impera. Existe sem porquê. Sai pelos poros em inércia e luz. Pega oxigênio e maresia, solta suspiros e poesia. Embora não me entregue ao mar ao longe, não reine sobre ele sobre placas que me deixem em pé, não fure com os braços as ondas respirando alternadamente do lado direito ou esquerdo, estou em bons termos com sua existência. Caminhar com ele ao lado é quieto, ver o corte dele no horizonte é reto. Saber ser ele longínquo, bonito e constante, como a saudade que me filtra os chakras, é certo. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

[BÊ ÉRRE]


Estou à bordo de um veículo que não navega. Nele embarquei, dele vou desembarcar. Dentro dele se permite sonhar. Sonhamos eu e os outros. Democráticos no nosso espaço, silêncio e sono. Com o barulho e o tremor vamos sentindo que vamos, passíveis do condutor. Aqui cruzamos os braços, contamos eucalíptos, imaginamos de onde vem os animais que se alimentam do pasto que parece infinito. Se pensa sobre as casas no meio do nada, sobre as barracas de castanhas e laranjas. Castanhas em pacotes, laranjas em rede. Meninos com sede que vão e vem abastecer as prateleiras de madeira e pendurar nos pregos frutas frescas.

No anoitecer o escuro é denso, na viração o sol é intenso. Moscas de luz, rajadas, mosquitos de chuva, água. Sereno que desce do céu sem se ver. Há as montanhas de perto, há as que mais parecem sombras. Background pintado de filme dos anos 30. Quase não há gente, consenso coletivo em fingir não-solidão. Pode haver música nas orelhas, lápis e papel no colo, telefone na mão, mãos sobre a cabeça ou atrás dela. Pés no chão ou em apoiadores. Quilômetros que vão, quilômetros que vento. Ouvir o lado de fora não deixa ouvir o lado de dentro.

Há as memórias que vem, que em nada dialogam com a paisagem, mas que –penso --, precisam de paz de espírito para fazer passagem. Paz essa, da qual inclusive disfruto para seguir viagem.


Foto: Lesley Dodson